Este texto a seguir é uma análise que Nelson Rorigues faz de sua própria obra. Leitura obrigatória!
Pedem-me que resuma minhas idéias e experiências teatrais. Não me custa nenhum esforço nesse sentido.
Escrevi minha primeira peça – A Mulher Sem Pecado – em 1940 e andei, de porta em porta, atrás de um benemérito, que quisesse encená-la. Eu era, então, bem mais modesto. Admitia todas as hipóteses, menos a de ser, com o tempo, um autor discutido ou, como sugerem pessoas amáveis, o autor mais discutido do Brasil. Justa esta humildade, pois minha inocência teatral era imensa.
Tentava, pela primeira vez, um texto dramático. Para meu azar ou sorte - não sei bem - já A Mulher sem Pecado inspirou debates. O que era a peça? Uma repetição exasperante. Os espectadores se entreolhavam, assustados e desconfiados.
O drama não andava; o primeiro ato era uma coisa; o segundo, a mesma coisa; o terceiro, idem. Lembro-me que, na estréia, coloquei-me, estrategicamente, para ouvir os comentários.
Constatei que o público, na maioria absoluta dos casos saía indignado. Por vários motivos: porque a peça não tinha ação; era mórbida; inverossímil; os mais gentis admitiam que fosse cansativa ou monótona; os mais sinceros, usavam a expressão – chata. Esta, a reação do público. Já a crítica portou-se com mais ferocidade; Li comentários particularmente agressivos contra a avó doida, personagem que se conserva, durante os três atos do drama, sem fazer nada. Minto – esta senhora tinha uma atividade bastante singular, qual seja a de enrolar um paninho. Mas não dizia uma palavra, não ensaiava outro gesto além do mencionado, nem saía de uma confortabilíssima poltrona. Ninguém entendeu esta imobilidade. E certo crítico interpelou-me, de público, achando que, inclusive, o papel era um desaforo atirado à face da intérprete. Esboçou-se mesmo um movimento de classe contra a desconsideração à colega. Fiquei preocupado e quase autorizei a intérprete a virar umas cambalhotas, em cena.
Não foram estas, porém, as únicas objeções. Reclamava-se contra a interferência de uma morta na ação. Uma morta que aparecia fisicamente para atormentar o marido! Surgiu uma blague – A PEÇA ERA ESPÍRITA. Mas A Mulher sem Pecado não conseguiu um ruído considerável. Era imoral, sim, mas de uma imoralidade bem comportada. Não dava para assustar ninguém.
Já então, além dos detratores, havia, também, os entusiastas. Uns e outros, frenéticos. Se os primeiros me achavam idiota, os segundos usavam o termo – GÊNIO. E, fazendo um balanço, verifiquei que minha experiência fora bastante animadora. Eu fizera A mulher sem Pecado com a intenção de conhecer a minha própria capacidade teatral e de operar uma sondagem no público. Ora, diziam o diabo do público. Atribuíam ao público todas as culpas. E se usava uma lógica muito sutil e que assim posso resumir: Se não havia nem autores, nem peças geniais, o culpado era o público. Raciocínio que parecia a mim, vagamente suspeito. Devo acrescentar que, na época, eu não acreditava em mim. Em compensação, acreditava muito menos no teatro brasileiro e na nossa dramaturgia. No meu exagero, dividia os nossos autores em duas classes, a saber: a dos falsos profundos e a dos patetas. Esta última sempre me pareceu a melhor, a mais simpática. Julgamento, como se vê, sumário e injusto, pois sempre tivemos valores solitários e irrefutáveis. Em face desse estado de coisas, senti no semifracasso de A Mulher sem Pecado algo como uma apoteose. E resolvi realizar o Vestido de Noiva.
Na minha primeira peça – a título de sondagem – introduzira uma defunta falante, opinante, uma meia dúzia de visões, uma personagem incumbida de não fazer nada, uns gritos sem dono. Eram algumas extravagâncias tímidas, sem maiores conseqüências. Mas tanto bastou para que alguns críticos me atirassem o que lhes parecia ser a suprema injúria: me compararam a Picasso, a Portinari, etc.
Fiz Vestido de Noiva com outro ânimo. Esta peça pode não ter alcançado um resultado estético apreciável, mas era, cumpre-me confessá-lo, uma obra ambiciosa. A começar pelo seu processo. Eu me propus a uma tentativa que, há muito, me fascinava: contar uma história, sem lhe dar uma ordem cronológica. Deixava de existir o tempo dos relógios e das folhinhas. As coisas aconteciam simultaneamente. Por exemplo: determinado personagem nascia, crescia, amava, morria, tudo ao mesmo tempo. A técnica usada viria a ser a de superposições, claro. Antes de começar a escrever a tragédia em apreço, eu imaginava coisas assim: A personagem X, que foi assassinada em 1905, assiste em 1943 a um casamento, para, em seguida, voltar a 1905, a fim de fazer quarto a si mesma...
Senti, nesse processo, um jogo fascinador, diabólico e que implicava, para o autor, numa séria de perigos tremendos. Inicialmente, havia um problema patético: a peça, por sua própria natureza, e pela técnica que lhe era essencial e inalienável, devia ser toda construída na base de cenas desconexas. Como, apesar disso, criar-lhe uma unidade, uma linguagem inteligível, uma ordem íntima e profunda? Como ordenar o caos, torná-lo harmonioso, inteligente?
Tal problema, evidentemente, só interessava ao autor. De qualquer maneira, completei Vestido de Noiva. Como sucedera com a A Mulher sem Pecado, fui levar o novo original de porta em porta. Tive pena de mim mesmo e pior do que isso: tive consciência de que meu ridículo era dessas coisas tenebrosas e definitivas. Recebi, muitas vezes este conselho: Você precisa perder a mania de ser gênio incompreendido. Ao que cortesmente respondia: Pois, não! Pois, não! Mas insisti, com uma tenacidade em que havia algo de obtuso. E insisti porque acreditava, sobretudo, numa coisa, na forma de Vestido de Noiva, no seu processo de ações simultâneas, em tempos diferentes. Alguns intelectuais me estimularam, inclusive Manoel Bandeira. Baseei-me, então, numa hipótese amável: em caso de um espetacular fracasso de bilheteria, haveria certo êxito literário
Veio a estréia; E, com o maior pasmo, vi-me diante do que, com certa ênfase, poderia chamar de consagração. Chamaram à cena o autor; fomos depois, eu e elenco, à Americana, celebrar o triunfo numa ceia eufórica. Em 1943, ninguém sabia aqui, da existência de Eugene O´Neill; o único autor que se usava, com abundância era Pirandello. Qualquer coisa que não fosse uma chanchada ignominiosa era pirandelliana; qualquer autor que não fosse um débil mental – virava um Pirandellozinho indígena. Tive Também, com Vestido de Noiva, A minha hora pirandelliana. Paravam-me no meio da rua para que eu confirmasse esta influência. –Você lê muito Pirandello, não lê?
Eu, cínico, dizia que sim. A pessoa partia, radiante. Mas aí de mim! Com Vestido de noiva, conheci o sucesso; com as peças seguintes, perdi-o, e para sempre. Não há nesta observação nenhum amargor, nenhuma dramaticidade. Há, simplesmente, o reconhecimento de um fato e de sua aceitação. Pois a partir de Álbum de Família – drama que se segue a Vestido de noiva – enveredei por um caminho que pode me levar a qualquer destino, menos ao êxito. Que caminho será este¿ Respondo: de um teatro que se poderia chamar assim – desagradável. Numa palavra, estou fazendo um teatro desagradável, peças desagradáveis. No gênero destas, incluí, desde logo, Álbum de Família, Anjo Negro e a recente Senhora dos Afogados. E por que peças desagradáveis?
Segundo já disse, porque são obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na platéia.
Álbum de Família não conheceu o destino para o qual foi escrito – o palco. Antes de levar a malsinada tragédia a uma companhia, ocorreu-me um escrúpulo – submeti-a a censura. O primeiro censor concluiu que nenhuma linha da peça devia ficar de pé. Condenou-a em bloco. Estava assim proibida a encenação. Álbum de Família só pôde ser apresentada ao público em forma de livro. Em torno desta minha peça, operou-se um grande e furioso movimento crítico. Em todo o Brasil, escreveu-se sobre o drama que, segundo Leitão de Barros, estava colocado num plano ginecológico. A maioria foi passionalmente contra.
Só algumas figuras, abnegadas e corajosas, conferiram ao Álbum uma categoria artística – os Srs. Prudente de Morais, neto, Manoel Bandeira, Sérgio Millet, Santa Rosa, Pompeu de Souza, Accioly netto, Mote Brito, Lêdo Ivo, As Sras. Dinah Silveira de Queiroz, Lúcia Miguel Pereira e poucos mais.
Os detratores da peça se colocavam em pontos de vista curiosos.
Por exemplo: dizia-se que havia incesto demais, como se pudesse haver incesto de menos. Esse critério numérico foi adotado por quase todo mundo. Alguns críticos estariam dispostos a admitir um incesto ou dois; mais, não. Outros assinalavam minha insistência na torpeza; terceiros, arrasavam a incapacidade literária; ficou patenteada também a inexistência de um diálogo nobre. Este último defeito, por si só, parecia excluir Álbum de Família do gênero trágico. Onde já se viu uma tragédia sem diálogo nobre? E não foi tudo. Houve, ainda, acusações de morbidez, imoralidade, obscenidade, sacrilégio, etc. , etc.
Nuca me esqueço de certas indignações com efeitos retroativos. Eram pessoas quem na base de Álbum de Família, negavam rancorosamente Vestido de Noiva e A mulher sem pecado. Como autor, pus-me a pensar: não havia nessa oposição nenhuma atitude crítica, que se caracterizasse pela isenção e pela lucidez. Era como se os detratores se julgassem ofendidos e colocassem um problema teatral, estilístico, estético, em termos passionais. Como explicar de outra maneira o tom de debates, a violência, a paixão por vezes obtusa, os desaforos? Afinal de contas, uma pessoa pode gostar ou não de uma obra de arte. Mas sem o direito de ficar furiosa.
Como autor, fiquei à margem de tudo. Não articulei uma frase, não usei um contra-argumento. E, no entanto, muitos dos críticos eram de uma fragilidade de meter dó. Eu poderia alegar, a favor de Álbum de Família, várias coisas, inclusive que, para fins estéticos, tanto fazia um, dois, três quatro, cinco incestos ou meia dúzia. Podiam ser duzentos. Na verdade, visei um resultado emocional pelo acúmulo, pela abundância, pela massa de elementos.
Outro autor, ou eu mesmo, podia fazer de um incesto uma exceção, dentro da peça, um fato solitário. Mas não quis, por um motivo muito simples: porque esta exclusividade, esta exceção, não pertencia à concepção original do drama, à sua lógica íntima e irredutível. Por outras palavras: para minha visão pessoal e intransferível de autor, o número exato de incestos eram quatro ou cinco e não dois ou três.
O nível estilístico das falas foi outro problema. Todo mundo observou que o diálogo não era nobre. Com efeito, não era, nem precisava sê-lo. Sempre me pareceu ingênuo discutir os meios de que se serve o autor para atingir certo efeito emocional.
Evidentemente, os meios são lícitos se o efeito é atingido. No Álbum de Família, porém, colocou-se mal a questão. Afirmou-se que o diálogo não era nobre. E nada mais. Ora, o problema que se apresentava ao crítico era menos simples, ou seja: saber se através desse diálogo se podia chegar a um grande, irrefutável altura dramática.
Que se diga isso de mim, pobre autor brasileiro, apenas esforçado, está certo. Mas contra Eugene O`Neill se articulam as mesmas objeções. Nega-se O´Neill estilisticamente. Consagrou-se a sua força poética, a sua potencialidade dramática, o seu sentimento trágico da vida. Mas sua linguagem é considerada pobre, vulgar sem correspondência com a vocação teatral. E, recentemente, um crítico americano reconhecia que as cenas de O`Neill são inesquecíveis, as situações de uma potência incomparável, os personagens eternos. Mas, o estilo, a frase, nem tanto. Não ocorreu ao crítico que se as cenas, as situações, os personagens têm esse relevo, é porque está tudo estilisticamente certo.
Anjo Negro é a última das minhas peças representadas, mais feliz que Álbum de Família, porque foi encenada – graças a uma decisão pessoal do Sr. Ministro Adroaldo Mesquita da Costa -; produziu, no entanto, a mesma irritação.
Ora, o Álbum de Família, peça genesíaca, devia ter por isso mesmo alguma coisa de atroz, de necessariamente repulsivo, um odor de parto, algo de uterino. Já o Anjo Nego pôde se manter num plano menos espantoso. Ainda assim, o furor crítico excedeu todas as expectativas, O drama de Ismael foi considerado mórbido, imoral, monstruoso. Também se afirmou que me repito nos assuntos e personagens.
Passada a tempestade, vejo que muitas das opiniões, que se levantaram contra mim e o meu drama, são procedentes. Com efeito, Anjo Negro é mórbido; e eu, mórbido também. Aliás, jamais discuti ou refutei a minha morbidez. Dentro de minha obra, ela me parece incontestável e, sobretudo, necessária. Artisticamente falando sou mórbido, sempre fui mórbido, e pergunto: Será um defeito? Nem defeito, nem qualidade, mas uma marca de espírito, um tipo de criação dramática.
Fosse Anjo Negro uma peça sadia, e não vejo em que teria melhorado sua hierarquia estética. Centenas e centenas de dramas, poemas, romances, quadros, repousam seu valor estético numa morbidez rica, densa, criadora, transfigurante. Parece-me idiota ir-se ao teatro expressamente para ver uma peça mórbida; ou, então, para não ver uma peça mórbida.
Anjo Negro é monstruoso¿ Inclino-me por uma resposta afirmativa. Se considerarmos os seus fatos, paixões e personagens, sob um arejado critério de dona de casa ou de lavadeira – o drama será monstruosíssimo. Com efeito, Virgínia mata três filhos, e semelhante operação está longe de ser meritória. A maioria dos críticos se baseou no onde já se viu uma coisa dessas? Ora, cada um faz seu juízo como quer, entende ou pode. De qualquer maneira, parece-me precário o crítico que se enfurece contra os personagens e se põe a insultá-los Imagino uma pessoa que, perante O Avarento, de Molière, invalidasse a peça, sob a alegação de que o personagem é um pão-duro, um unha-de-fome. Ou, então, que, em face de Otelo, se pusesse a berrar, da platéia: - Canalha!
De certo ponto de vista, Otelo não deixa de ser um canalha. E talvez até, o crítico tenha razão. Pois os meus personagens possuem a glória invejabilíssima de irritar a crítica. Virginia sofreu as mais graves restrições de ordem moral. Ismael, idem. Até o Homem de seis dedos foi destratado. E, no entanto, eu como autor, possuo outros pontos de vista. Sempre me pareceu que, para fins estéticos, tanto faz um canalha, como um benemérito. Acrescentarei mais: é possível que a importância dramática do canalha seja mais positiva. Se Virgínia fosse uma mãe exemplar, uma heroína do tanque e da cozinha, não haveria o drama.
O caso de Ismael foi interessante. Alegou-se, por exemplo, que não existia negro como Ismael. Entre parênteses, acho que existem negros e brancos piores do que Ismael. Mas admitamos que a acusação seja justa. Para mim, tanto faz, nem me interessa. Anjo Negro jamais quis ser fidelíssima. Uma veracíssima reportagem policial. Ismael não existe em lugar nenhum; mas vive no palco. E o que importa é essa autenticidade teatral. Outra objeção contra o drama e o autor: insistência de um tema que já foi usado em outras obras minhas. Seria um sintoma de fadiga, um colapso - quem sabe se definitivo – de imaginação criadora? Não, segundo o meu suspeito modo de ver as coisas. Aliás, de todos os meus possíveis defeitos, este é o que menos me preocupa. Ser autor de um tema único não me parece defeito, nem qualidade, mas uma pura e simples questão de gosto, de arbítrio pessoa. Por outro lado, um autor que volta a um assunto, só se repete de modo muito relativo. Creio mesmo que não se repete nada. Cada assunto tem em si mesmo uma variedade que o torna infinitamente mutável. Sobre ciúme o mesmo autor poderia escrever 250 peças diferentes, sendo duzentas e cinqüenta vezes original. Sobre o amor também. Sobre a morte, idem.
Críticos fizeram uma observação restritiva: minha obra toda gravitava em torno de – sexo, sexo, sexo. Sendo isso verdade, qual o incoveniente? Já disse que não vejo como qualquer assunto possa esgotar-se e muito menos o sexual.
Todavia, no caso particular desta observação, há uma malícia sensível. Já não importa tanto o fenômeno da repetição e sim a natureza e a gravidade do tema. O assunto sexual ainda dá motivo a escândalo. Amigos e conhecidos meus, interpelam-me na rua. Você só sabe escrever sobre isso?
Isso é o amor. Há nesta pergunta um fundo de indignação, que eu não devia compreender e que talvez não compreenda mesmo. Afinal de contas, por que o assunto amoroso produz esta náusea incoercível? Por que se tapa o nariz ao mencioná-lo? E, sobretudo, porque investem contra mim, como se fosse eu o inventor do sexo e como se ele não existisse na vida real, nem tivesse a menor influência na natalidade, aqui e alhures?São perguntas que formulo e desisto de responder.
Peçam tudo, menos que eu renuncie às atrocidades habituais dos meus dramas. Considero legítimo unir elementos atrozes, fétidos, hediondos ou o que seja, numa exposição estética. Qualquer um pode, tranquilamente, extrair poesia de coisas aparentemente contra-indicadas. Isso é tão óbvio, que me envergonho de repeti-lo.
E continuarei trabalhando com monstros. Digo, monstros, no sentido de quem superam ou violam a moral prática cotidiana. Quando escrevo para teatro, as coisas atrozes e não atrozes não me assustam. Escolho meus personagens com a maior calma e jamais os condeno. Quando se trata de operar dramaticamente, não vejo m que o bom seja melhor que o mau. Passo a sentir os tarados como seres maravilhosamente teatrais. E, no mesmo plano da validade dramática, os loucos varridos, os bêbedos, os criminosos de todos os matizes, os epiléticos, os santos, os futuros suicidas. A loucura daria imagens plásticas inesquecíveis, visões sombrias e deslumbrantes para uma transposição teatral!
Certa vez, o Sr. Carlos Drummond de Andrade falou em obras primas fulgurantes... E podres.
Infelizmente, minhas peças não são obras-primas. Se o fossem, teriam o direito de ser podres.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Assinar:
Postagens (Atom)