sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Primeiras idéias para a Montagem de A VIDA COMO ELA É

Primeiras idéias para A VIDA COMO ELA E
Esta pesquisa busca criar conceitos para o universo plástico, sonoro e corporal para uma montagem de A Vida Como Ela É. Como meu processo de criação é muito plástico, comecei a elaborar uma ambientação para a encenação, pois precisava ver onde estes personagens habitam. Não chega a ser a idéia de um cenário, mas de uma ambientação, uma instalação, um universo visual.
Iniciei o processo criando elementos vermelhos. Depois dele desenhado, comecei a conceituar de onde ele tinha surgido, buscando os porquês dos elementos que surgiram e em que local da minha mente e referências eu teria apoiado para elaborar este primeiro rascunho.
Do que me lembro deste universo folhetinesco de A Vida Como Ela É, a questão sexo reprimido, assassinatos, homicídios estão bastante associados. O universo dos funcionários públicos, os desejos sexuais dentro de armários, gavetas e portas me levaram a uma associação com uma personagem real bastante intrigante, contemporânea a Nelson e que, poderia tranquilamente ser um personagem de ficção destes contos de A Vida Como Ela É: Carlos Zéfiro.
OS DESENHOS NAS PAREDES. O Banheiro Público.
Carlos Zéfiro é o pseudônimo do funcionário público brasileiro Alcides Aguiar Caminha (Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1921 - Rio de Janeiro, 5 de julho de 1992) que ilustrou e publicou, durante as décadas de 50 a 70, histórias em quadrinhos de cunho erótico que ficaram conhecidas por "catecismos". Durante todos os anos em que produziu e publicou esses quadrinhos, Zéfiro nunca revelou a sua identidade. (Esta ação de desenhar e escrever pornografia me remeteu imediatamente aos desenhos e escritos que aparecem na parede do banheiro da casa de Os 7 Gatinhos)
Como funcionário público do setor de Imigração do Ministério do Trabalho, onde se aposentou, Alcides permaneceu anônimo. Teria problemas de produzir esta arte por se tratar de funcionário público submetido à Lei 1.711 de 1952 que poderia punir com a demissão o funcionário público por "incontinência pública escandalosa".
Essas publicações foram apelidadas de "catecismos" pois tinham o mesmo formato dos livrinhos de quem freqüentava a igreja para fazer a comunhão. Nada mais rodrigueano do que associar perversão, sexo à religião.
Somente em 1991, Alcides Aguiar Caminha, um ano antes de morrer, revelou sua identidade para uma entrevista a Revista Playboy. (Este ato também me faz lembrar este universo anos 40 e 50 dos quadrinhos de Super-Homem, em que Clark Kent mantém sua personalidade oculta. E, por ironia do destino, Clark também atua como jornalista, assim como Nelson Rodrigues.
Zéfiro foi a cartilha de aprendizado de sexo toda a geração contemporânea ao período em que Nelson publicou A Vida Como Ela E.
O universo pequeno-burguês tratado nestes quadrinhos de Zéfiro com elementos de sexo e perversão através de histórias curtas se assemelha a forma de A Vida Como Ela É. Acho bastante pertinente aproximar um pouco a linguagem quadrinhos de Zéfiro e o texto de Nelson.
AS PAREDES/CORTINAS VERMELHAS TRANSPARENTES. Diáfana, Inconsútil
Depois deste primeiro esboço da ambientação comecei a fuçar de onde vieram estes elementos. E me deparei com outro artista a quem acredito este universo de Nelson Rodrigues se aproxima: David Lynch, principalmente no que diz respeito à parte plástica da sua obra cinematográfica.
O que acho mais intrigante no universo de Lynch é o espaço físico criado em seus filmes que assombram e sufocam os personagens. Não um assombro do espaço exterior, como em filmes de terror, mas do personagem estar meio que dentro de si mesmo, preso em sua mente, nos seus desejos mais obscuros. Lynch transforma o espaço fechado em algo assustador, que nos suga para dentro, um reflexo do mal que paira lá fora. O ambiente é desmascarado, e não reconhecemos mais a proteção que deveria nos proporcionar. A ideia das paredes translúcidas utilizadas na ambientação deste esboço funcionam como as famosas Cortinas Vermelhas de Lynch, que buscam emaranhar a cena neste universo intimo e particular.
SONIA, QUEM E SONIA!?
A idéia de utilizar o narrador também aproxima o universo rodrigueano de Lynch, no que diz respeito ao Duplo. Tranformando o ator em dois personagens, visto que o narrador também fala o que se passa com a personagem, este vem a ser o desdobramento do ego. O duplo serve para realçar o sentimento de estranheza para com aquilo que conhecemos, ou aquilo que aceitamos. O duplo é tudo aquilo que nós não somos, seja aquilo que queríamos ser ou aquilo que queremos esconder. (Esta dicotomia me lembra bastante a personagem Sonia, de Valsa N 6. A personagem narra a sua vida como se ela fosse uma Outra).
FAÇA-SE A LUZ!
Outros elementos que surgiram na criação desta ambientação com muita força foram luminárias e postes. E me deparei novamente com Lynch. Sendo um dos elementos mais presentes em sua obra.
Sempre há eletricidade, seja na forma de uma lâmpada, um raio, ou uma corrente vinda deus-sabe-de-onde, e os personagens parecem atraídos a ela, como insetos. Mas, ao contrário do que pode parecer, a eletricidade não é um aspecto bom; ela não está lá para nos ajudar, e sim para nos atormentar. Vivemos na escuridão, cegos aos problemas que ocorrem à nossa volta, e a eletricidade serve como um veículo para nos mostrar a realidade. É como um grande tapa na cara, um balde d'água fria, onde acordamos e vemos o mundo como ele realmente é.
David Lynch e Nelson tem vários episódios de vida que os aproximam: filhos nascidos deficientes, períodos de apogeu e declínio muito marcados. Seus primeiros casamentos foram realizados com mulheres conquistadas em ambientes de convívio de trabalho.

UM É POUCO, DOIS É BOM E TRÊS É MELHOR
Acho bastante pertinente a aproximação entre o universo desses 3 artistas em algus aspectos:
1. Localização no Tempo/Espaço.
Na obra de Lynch se percebe sempre uma proximidade com os anos 40/50. Os desenhos de Zéfiro também são realizados entre 50/70 e Nelson escreve A Vida Como Ela É entre 50/60.
2. Busca de uma Vida Mais Libertária.
Os personagens buscam sair de suas vidas medíocres e vão em busca de libertação.
David Lynch se inspira nos ícones americanos da sensualidade. Em O Coração Selvagem, o personagem Sailor é um clone híbrido de Elvis Presley e James Dean, ídolos da rebeldia e sexualidade dos anos 50. Em Cidade dos Sonhos, a personagem sem memória ao ter que criar uma identidade passa a se chamar Rita por causa de um cartaz do filme Gilda, com Rita Hayworth. Em A Vida Como Ela É Nelson retrata os casamentos de conveniência, os crimes passionais e cria situações onde os personagens precisam de um grito de libertação don conveniências sociais. Os personagens de Zéfiro também encontram no sexo esta libertação dos desejos reprimidos por uma sociedade castradora.

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